ENTRE A NORMA E O SUBJETIVO: QUESTÕES A RESPEITO DA SEXUALIDADE E DO DEFICIENTE LESADO MEDULAR.

SHARYEL BARBOSA TOEBE, MARCUS VINICIUS CASTRO WITCZAK

Resumo


O Serviço de Reabilitação Física de Nível Intermediário (SRFis) é um projeto de extensão comunitária da UNISC. A Psicologia atua em conjunto com a equipe multidisciplinar que trabalha as questões da reabilitação física. A intencionalidade de se pesquisar a relação entre sexualidade e deficiência física ocasionada por lesão medular (para e tetraplegia) fundamenta este escrito. As inquietações e questionamentos sobre essa temática originam-se a partir do contato cotidiano com os pacientes do SRFis e sua relação com a própria sexualidade. A metodologia desta discussão é o construcionismo social, em que a noção de indivíduo é entendida como uma construção social, pretendendo escapar a uma perspectiva individualista (SPINK e FREZZA, 1999). Nesta perspectiva, podemos entender a sexualidade como um fenômeno socialmente construído, apesar de ser geralmente considerada como algo natural (SOARES, MOREIRA, MONTEIRO, 2008). É um tema amplo, que abrange aspectos anatômicos, fisiológicos, histórico-culturais e subjetivos que fazem parte integral de todo os seres humanos. A Psicologia se ocupará da face subjetiva da sexualidade, que se manifesta por meio dos desejos e suas representações na constituição de relações que envolvem o afeto e os sentimentos, o erotismo e o prazer, além da construção de gênero (BOCK, 1999). Faz-se necessário também compreender as influências históricas, culturais e sociais que esta sofre por meios ideológicos, crenças, costumes, moralismos, políticas, preconceitos e tabus. Spink e Medrado (1999) colocam que o pressuposto que fundamenta o desenvolvimento da Psicologia Social é o ato de dar sentido ao mundo, enquanto força motriz da vida em sociedade. O construcionismo social, assim, busca "identificar os processos pelos quais as pessoas descrevem, explicam e/ou compreendem o mundo em que vivem, incluindo elas próprias"(p. 60). Centra-se nas práticas discursivas que são os meios pelos quais as pessoas produzem sentidos e se posicionam nas relações que estabelecem no cotidiano. Assim, o foco sobre práticas discursivas faz com que se privilegie a diversidade e a não regularidade, tal como se apresenta na linguagem em uso. E o sentido é dado pelo uso dos repertórios interpretativos de que as pessoas dispõem. A sexualidade enquanto repertório é normatizada por regras que podem estar explícitas ou não, que nos são apresentadas (ou até mesmo impostas) por meio de instituições que vão fazer uso da moral, pressupondo o seu segmento e prometendo a felicidade idealizada. Outros aspectos da sexualidade seguem a mesma lógica de produção social: a idealização do corpo perfeito, da estética, da beleza, do desempenho sexual. Também a ideia de deficiência é uma construção social que se modifica no decorrer da história e de acordo com a cultura. O julgamento que fazemos sobre a diferença invade o corpo do deficiente, dizendo que ele é um corpo não funcional, que não responde e é imperfeito, impondo-lhe desvantagem social (MAIA - RIBEIRO, 2010). O corpo deformado e disfuncional se encontra distante dos modelos de beleza socialmente aceitos e procurados, subsidiando os temores que refletem também os sentimentos de autoconfiança e competência. O próprio sujeito estigmatizado incorpora determinadas representações e se identifica com essas tipificações. O papel da Psicologia é de suscitar a reflexão, mostrando que existem outras formas de viver e de pensar a sexualidade, não somente as que estão de acordo com os modos colocados pela sociedade.


Apontamentos

  • Não há apontamentos.