RELAÇÕES DE GÊNERO E O PROCESSO DE SUBJETIVAÇÃO FEMININA DAS PACIENTES MULHERES DO HOSPITAL COLONÔNIA DE ITAPUÃ

Rafaela Limberger, Camilo Darsie

Resumo


O trabalho pretende analisar o processo de subjetivação feminina das pacientes mulheres do Hospital Colônia de Itapuã, bem como as relações de gênero presentes no Hospital. Esta instituição foi o primeiro hospital no Rio Grande do Sul para pacientes com Lepra. Fundado em 1940, o HCI[1] foi construído nos moldes de uma pequena cidade no município de Viamão e recebia através da internação compulsória pacientes de todo o estado. Essa instituição seguia um projeto da Era Vargas possuindo na estrutura: igrejas, área de lazer, hospital, refeitório incluindo determinado espaço para a moradia ou permanência de funcionários, outro para a administração do local e, por fim, o espaço dos doentes.

A instituição funcionava com inúmeras regras de convivência, principalmente relacionadas a questões de gênero; homens e mulheres no espaço destinado ao refeitório deveriam ficar dispostos cada um de um lado, o casamento era autorizado dentro da instituição, mas para casar era preciso ter licença do diretor do hospital, juntamente com a autorização da irmã responsável pelo local, os casais que viviam em matrimônio e que tivessem filhos no hospital não poderiam criar seus filhos, sendo estes enviados para uma instituição chamada de preventórios.

Os pacientes eram proibidos do convívio com a sociedade e, viviam constantemente sobre vigilância, só a partir de 1950, com as melhorias no tratamento da doença e com a diminuição dos casos, não era mais necessário o internamento compulsório. Contudo, os pacientes que ali já haviam criado com o espaço vínculos de pertencimento e afetividade, acabaram, na sua maioria, continuando a morar no hospital, com a garantia do cuidado do poder público.

Diante disso através de um documentário feito no hospital, em 2012, foi possível neste trabalho analisar as narrativas das pacientes mulheres que ainda residiam no local, bem como a análise de fotografias e documentos. Para tanto, foi utilizada a pesquisa qualitativa e a análise de narrativas como ferramentas analíticas. Através de um olhar voltado para a história destas pacientes, buscou-se compreender como estas se constituíram enquanto sujeitos mulheres dentro do hospital e o quanto suas identidades foram moldadas através das regras de convivência, perpassadas por relações de gênero e poder.

Ao utilizar as abordagens de Michel Foucault, fica claro que nestes lugares de “reclusão” os pacientes são constantemente perpassados por relações e discursos de poder e submissão. Também em vista disso, pode-se concluir como estes corpos eram censurados e como o sexo se torna um dispositivo de controle dentro do hospital. Aponta-se juntamente com os conceitos foucaultianos, o conceito de gênero de Joan Scott (1995), que deixa claro que as questões de gênero eram impostas dentro do hospital, havendo desigualdades entre homens e mulheres. Procurava-se evitar o contato físico entre os pacientes, as mulheres em virtude de sua submissão construída historicamente, deveriam ser sujeitos dóceis dentro do HCI. As pacientes mulheres deveriam ficar contidas no ambiente privado do hospital mesmo se tratando nas questões de ajuda de tarefas e trabalho, bem como coloca Michelle Perrot (1992), que historicamente as questões referentes ao trabalho eram separadas de forma sexual, levando em conta também o espaço público e o privado.

 

Palavras-chave: Hospital Colônia de Itapuã; Relações de gênero;Subjetivação feminina.


[1]Hospital Colônia de Itapuã


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