'O QUE EU PASSEI EU NÃO QUERO QUE AS MINHAS FILHAS PASSEM': UM ESTUDO SOBRE O ACESSO AO MERCADO DE TRABALHO COM FAMÍLIAS USUÁRIAS DO PROGRAMA MINHA CASA MINHA VIDA EM SANTA CRUZ DO SUL/RS/BRASIL

Maria Luiza Adoryan Machado, Cláudia Tirelli

Resumo


Este trabalho apresenta parte dos resultados da pesquisa intitulada “O Programa Minha Casa Minha Vida (PMCMV) e o acesso ao mercado de trabalho”, realizada por docentes e estudantes vinculadas/os ao PPG em Desenvolvimento Regional e ao Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Democracia e Políticas Públicas (GEDEPP) da UNISC. A presente pesquisa representa um desdobramento de estudos desenvolvidos anteriormente, pela mesma equipe, no projeto “Segregação urbana e desigualdades no acesso às políticas públicas em cidades médias”, o qual buscou investigar o efeito do deslocamento no espaço urbano sobre o acesso de grupos populacionais de baixa renda aos diversos serviços e bens públicos. Nessa primeira pesquisa foram aplicados questionários junto a uma amostra de moradores de dois residenciais construídos em SCS por meio do PMCMV: o Residencial Santo Antônio e o Residencial Viver Bem. Ambos estão situados na zona sul do município, em bairros considerados com alto índice de vulnerabilidade e risco social. Partindo-se da hipótese de que as redes de sociabilidade importam para o acesso da população aos diversos serviços públicos e ao mercado de trabalho, o objetivo da pesquisa atual consiste em analisar a relação entre as redes de apoio e sociabilidade e as possibilidades de acesso e permanência no mercado de trabalho. Através das narrativas provenientes da realização de entrevistas semiestruturadas com integrantes de sete famílias moradoras do Residencial Viver Bem e dos registros em diário de campo, identificou-se que o tema do acesso ao mercado de trabalho se entrelaça com as especificidades sociais, culturais e econômicas do território, sobretudo em relação às formas de acesso ao trabalho ou a sua ausência. Considerando que o efeito das políticas públicas não é o mesmos em todos os territórios e em relação aos distintos grupos sociais, os quais apresentam trajetórias de vida e de inserção profissional diferenciadas, a presente pesquisa destaca a importância de se conhecer melhor como a política habitacional produz experiências diversas para as famílias que passaram a viver nos referidos conjuntos habitacionais e de que forma as especificidades territoriais interferem na formação das redes que condicionam a ação dos sujeitos em suas práticas comunitárias e interpessoais. Constatou-se que a mudança territorial produzida pelo PMCMV provocou alterações tanto em termos geográficos como relacionais, pois o Programa não permitiu somente o acesso a uma nova casa e um novo local, mas também a outras pessoas, impactando e transformando as redes de sociabilidade das/os usuárias/os. Sujeitos que antes viviam em situação de rua, por exemplo, tiveram que compor novas tramas pessoais, sociais e profissionais em busca de vida digna, assim como aquelas pessoas que residiam no meio rural e que agora passaram a viver no contexto urbano em função de tal política habitacional, exemplificado no excerto escolhido para compor o título deste ensaio. Enfatizamos a importância de novas aproximações para que se obtenha dados emergentes de narrativas atuais, das especificidades que se encontram atualmente em dado território e de como o marcador “trabalho” se apresenta e se apresentou em tempos pandêmicos.

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ISSN 2764-2135