AUTOMUTILAÇÃO NA ADOLESCÊNCIA CONTEMPORÂNEA

JEMERSON MADRID DIAS, Eduardo Steindorf Saraiva

Resumo


O interesse pelo tema foi sendo estimulado a partir da grande incidência de relatos (vários deles informais) sobre a ocorrência do fenômeno de autoagressão nos dias de hoje, seja na própria escola, na fala de colegas que atuam em outros educandários ou até mesmo de conversas aleatórias com adolescentes em diversas situações. Além disso, apesar de não ser um fenômeno novo na história, pois muitos são os rituais que têm em seu bojo práticas automutilatórias (OLIVEIRA, 2016), as causas e condições (ou pelo menos a frequência) com que a autoagressão aparece hoje parece sim ser novidade (GAUTHIER, 2012 apud DE VILHENA, 2016). Essa prática pode ser nomeada de diversas formas: automutilação, autolesão, lesão autoprovocada, autoagressão, etc. Oliveira (2016) define a autoagressão como “todo ato voluntário de agredir o próprio corpo com cortes, queimaduras, perfurações e pancadas sem a intenção consciente de suicídio” (p.1). Além disso, o DSM V (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders 5th edition1) considera que o comportamento de provocar lesões em si mesmo está associado à tentativa de reduzir emoções negativas. Sabemos que a adolescência por si só é uma fase difícil. Mudanças no corpo, mudanças de responsabilidade e mudanças nas relações afetam diretamente a construção de identidade do sujeito. Ao mesmo tempo em que o indivíduo está se diferenciando (e por isso se distanciando) da família de origem, está procurando um espaço de pertencimento no mundo, um grupo ao qual fazer parte. O risco desse processo é quando o adolescente distancia-se o suficiente da família e não encontra pertencimento social, ficando em um limbo perigoso que pode predispor práticas autoagressivas devido à solidão, à culpa e ao abandono que sente. Considerando que o adolescente está abandonado pela família e não possui amigos – pois se afastou deles –, não tem modelos aos quais seguir, ou seja, está à mercê de sua própria escolha, e ainda é inseguro para assumir os riscos da sua decisão, o corte na pele vem para servir de descarga emocional, mas também possui uma característica de pertencimento. Existem grupos nas redes sociais de pessoas que se cortam ou se agridem, nos quais elas conversam sobre essas atitudes, o que pode estabelecer uma sensação de pertencer a um grupo, ter um lugar no mundo (OLIVEIRA, 2016). Pois quando o sujeito se corta ele crava a palavra (que não tem espaço para ser expressa) no próprio corpo, e cria um estilo, cria um modelo de ação que o faz parte de algo, que o faz presente na realidade do mundo. Ante o exposto, e devido à grande proporção de informações sobre atos dessa ordem, se faz necessário (na verdade é crucial) que se articulem ações para preveni-los e também que se organizem estudos para compreender melhor o fenômeno. Sendo assim proporcionar um espaço de escuta no qual esses jovens possam expor o que sentem, criar um espaço de fala para essa palavra que não tem expressão e por não ter manifestação se inscreve na pele, é o primeiro passo para abarcar os dois objetivos (a prevenção e o estudo). Verificar as características clínicas, os sintomas, causas e consequências do fenômeno, sejam elas psicológicas, sociais, relacionais ou de desenvolvimento (sabendo que os sintomas e causas são sempre multifacetados) é o principio de uma construção de conhecimento sobre o tema e também de elaboração de ações e políticas de atenção aos adolescentes que se autoagridem.


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