A linguagem poética e a criança: ouvir, ler, criar, fruir e brincar

Rosilene de Fátima Koscianski da Silveira, Eliane Santana Dias Debus, Fernando José Fraga de Azevedo

Resumo


A palavra poética, aqui compreendida como dialógica – numa concepção bakhtiniana de linguagem –, mostra-se com duas faces: procede de alguém e se direciona a alguém. É ela que nos possibilita apresentar neste texto os encontros “poesia e criança” vivenciados e refletir acerca dos aspectos que consideramos mais relevantes das interações estabelecidas entre ambas. O artigo reúne parte de investigação de Doutorado em Educação cuja pesquisa de campo propiciou encontros poéticos com crianças em uma escola da rede pública estadual de Criciúma-SC. Neles, foi possível observar a forma pela qual as crianças acolhem, dispensam atenção e interagem com os poemas a elas apresentados, ou por elas trazidos e compartilhados. A metodologia utilizada é denominada “espaços de narrativa” (LEITE, 2008), caracterizada pela realização de encontros sistematizados entre observador e sujeitos, empregando estratégias de natureza etnográfica e uso de diferentes instrumentos para captura de dados, especialmente gravação em vídeo. As palavras sobre poesia e as palavras poéticas lidas, ouvidas, fruídas e/ou inventadas nos encontros abrem um espaço-tempo reflexivo que ajuda a pensar algumas questões: o que as crianças entendem por poesia? Elas apreciam poesia? As crianças têm um acervo poético? Como lidamos com a poesia que as crianças nos apresentam? Como abordar a linguagem poética com crianças no campo da pesquisa e no espaço da escola? A problematização da temática se faz com interlocutores dos campos da linguagem, da literatura, em especial da poesia, da educação e da infância, como Bakhtin (2011), Benjamin (2002, 2013), Vigotski (2009), Paz (2012) e Kirinus (2008).

Palavras-chave


Palavra; Poesia; Poema; Infância; Criança.

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Referências


[...] apresenta, usualmente, uma visão inabitual ou insólita da realidade, destinando-se essa “deformação” e essa desarticulação intencional da monotonia da cadeia verbal linguística a melhor captar a atenção do leitor [e do ouvinte]. De facto, se a linguagem corrente se define pela promoção de um automatismo da percepção, a linguagem poética procurará, pela escolha dos elementos lexicais, pela disposição dos vocábulos, pelas associações semânticas e rítmicas, enfim, por um cuidadoso processo de selecção e de atenta estruturação do objecto estético, anular esse processo de automatização e generalização, valorizando, para o efeito, os elementos e os modos de construção que, pela sua alteridade, possam contribuir para uma incessante singularização do acto perceptivo. (AZEVEDO, 2002, p. 27)

[...] crianças variadas que queiram participar. Entendemos que a obrigatoriedade já inviabilizaria esta proposta do jeito como vem sendo estruturada. Se as relações de poder são inegáveis (e reconhecidamente inevitáveis), as ações junto às crianças, devem ser, logo de início, pelo menos centrada na opção, no desejo, no querer participar por parte delas. Pesquisar crianças sem que estas assim o desejem é manter uma estrutura de poder e distanciamento que não as emancipa do papel de objeto de estudo; que as mantém sob a égide do adulto-que-manda versus a criança-que-obedece. Portanto, centrar-se no querer da criança, por si só, já marca uma mudança nas relações social e culturalmente estabelecidas entre adulto-criança na contemporaneidade. (LEITE, 2008, p. 123)




DOI: http://dx.doi.org/10.17058/signo.v45i83.14785

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