A INTERIORIDADE DESLOCADA – A REIVINDICAÇÃO DO FORA

Marli Teresinha Silva da Silveira

Resumo


Heidegger é um filósofo fundamental para a Educação, talvez não tanto pelo que escreveu e tematizou sobre o tema (realmente pouco escreveu e o fez em relação ao ensino superior), mas pelo que ofereceu à cultura ocidental, também oriental, sobre a condição humana, o habitar ética e poeticamente as proximidades do ser e a reviravolta alçada pela sua ontologia fundamental, trazendo o mundo para o recorte da compreensão originária. A psicanálise e a psicoterapia também foram/são influenciadas pela analítica existencial heideggeriana (HEIDEGGER, 1927), por mais controverso que possa parecer tendo em vista o filósofo não debruçar-se sobre casos, aspectos e situações concretas da dimensão ôntica, inclusive, não tratou de oferecer uma nova antropologia, antes combateu os cânones pautados pela metafísica tradicional que resultou no homem racional e no encobrimento da diferença ontológica.

A radicalidade da analítica existencial, desenvolvida de modo especial pela obra Ser e Tempo (HEIDEGGER, 1927), apresenta novas bases para se pensar a condição humana, não mais assegurada pela razão e pelo pensamento que calcula (HEIDEGGER, 1927), mas pelas implicações dos sentidos do mundo, da relação íntima, reiterada e fundamentalmente originária entre o indivíduo humano e o mundo. Mundo não como lugar, mas como horizonte de sentido (HEIDEGGER, 1927). Por conta da desconstrução da metafísica tradicional, edificada mais especialmente a partir de Platão, Heidegger apresenta uma nova e radical relação do homem/mulher e mundo, suplantando a dicotomia interioridade e exterioridade, mente e corpo, reaproximando o corpo do tempo, trazido não mais dissociado, mas como o lugar mesmo da abertura existencial humana, lá onde cada um dos que são humanos se encontra afetado pela presença dos outros. Desdobrada para o campo da Educação, assume-se que não existem determinações psíquicas ou do meio capazes de entregar o todo do que seria o modo de ser dos seres humanos, mas uma radical e inseparável reciprocidade entre homem/mulher e mundo. Implicando-se, o modo de ser humano, pelo contínuo exercício de si, nunca fechado e sempre lançado para possibilidades.

Pode-se dizer que a ciência moderna encobriu os sentidos do mundo, desconfiada do seu alcance e das suas possibilidades e foi justamente frente à alienação do homem ao mundo que se ergueu as condições para o desenvolvimento das ciências a partir dos séculos XVI e XVII (ARENDT, 2009). A emergência da condição humana provém da sua condição inabalável de estar aberto como um ser-no-mundo com outros e para as próprias possibilidades, em que o interior (dentro) não pode ser compreendido “de modo a poder identificar, definir, a localizar aquilo que obstrui a verdadeira expressão do sujeito ou os seus aspectos desadaptados” (FEIJOO, 2011, p. 14). No mesmo caminho e inversamente, as ciências empíricas do século XX procuraram encobrir o caráter inconsciente das teorias do “eu”, mas no seu lugar entregaram o indivíduo humano preso a uma estrutura comportamental que pode ser formada por condicionamentos. Concepção igualmente questionável por partir do caráter originário da estrutura biológica, orgânica do psiquismo humano (FEIJOO, 2001, p. 16).

A “interioridade deslocada” fundamenta-se na perspectiva de que não nos descobrimos “entrando” cada vez mais para “dentro”, como se existisse uma organicidade da mesmidade presa nas entranhas da nossa mente, mas que nosso modo de ser é implicado no e pelo mundo, nessa tensão permanente entre o “dentro” e o “fora”, e isso tem repercussão fortíssima para a Educação na medida em que não se parte da compreensão de indivíduos enredados por modos volitivos da sua psique ou de determinações do meio, quem sabe de uma possível “natureza”, mas como um modo de ser sempre em constante exercício de si mesmo desdobrado na acontecência do e no mundo. Para tanto, apresenta-se o modo de ser-no-mundo constitutivo da condição humana, percorrendo-se os parágrafos 9 ao 29 da obra Ser e Tempo (HEIDEGGER, 1993), sob a perspectiva de uma leitura fenomenológico-existencial, tendo como base a obra A existência para além do sujeito (FEIJOO, 2011), reverberando a presente tarefa, de viés bibliográfico, para a educação. Na medida em que o mundo se dispõe como âmbito em cujas cercanias criamos lugares, passamos a compreender as relações na horizontalidade das vivências compartilhadas e a experiência se desdobra como genuína relação com os sentidos abertos pela proximidade própria dos encontros, permitindo-se reposicionar ou desdobrar um novo sentido para o pedagógico, alicerçado na horizontalidade do mundo, na largura da experiência e na possibilidade de novos contornos existenciais para o modo de existir humano.

Palavras-chave: Interioridade; condição humana; analítica existencial; mundo; fenomenologia existencial


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