O IMAGINAR NO PROCESSO EDUCATIVO

Marcia Melchior

Resumo


O imaginar nos torna mais humanos do que qualquer outro ser animado, e é através do mundo escolar que podemos e devemos dar espaço para que nossos educandos possam ter uma melhor aprendizagem através da imaginação.  Desta maneira, poderemos ter novas criações ao invés de simples e meras repetições, tornando a aprendizagem mais sensível.

Para a tradição de índole cartesiana, a imaginação era considerada como fundamentalmente reprodutora, ou seja, a imaginação tinha por função formar imagens que se impunham como cópias do real anteriormente percebido. Nesse sentido, a faculdade de imaginar era considerada subalterna, não só em relação à percepção, como, também, em relação à inteligência. A percepção, por seu lado, permitia apreender, através dos sentidos, com toda a força impactante da presença, o real que estava diante de nós; a inteligência, por outro lado, conseguia revelar, através dos conceitos, a verdadeira faceta do mundo. Isso nos leva a concluir que, segundo a tradição, a imagem resultante da faculdade de imaginar era sempre algo inferior em termos do conhecimento do real. (BULCÃO, 2003, p. 12).

 

A imaginação pode contribuir no campo da educação, viabilizando a experiência da transformação, da metamorfose do sujeito. A estimulação do imaginário possibilita momentos constantes de descobertas, pois os educandos podem permitir-se novas experiências transformadoras ao serem desafiados ao fazer, ao explorar, ao inventar e ao recriar através do ato de imaginar. Ela é uma liberdade para algo na direção do possível, um vislumbramento que pode se tornar algo realizável ou não. Para tanto é necessário de emoções, que podem ser vivenciadas por meio de brincadeiras, histórias, do contato com a arte e com a natureza. Através do mundo escolar ela pode ser mediada pelo professor que pode proporcionar possibilidades de aprendizagens significativas mais sensíveis aos seus alunos. Um dos meios utilizados pelos professores, para exploração da imaginação, são as leituras. Calvino (1986), em breves palavras sobre a leitura, depõe:

Tenho certeza de que a leitura não é comparável a nenhum outro meio de aprendizagem e de comunicação, porque ela tem um ritmo que é o governado pela vontade do leitor; a leitura abre espaços de interrogação, de mediação, de meditação e de exame crítico, isto é, de liberdade; a leitura é uma correspondência não só com o livro, mas também com o nosso mundo interior através do mundo que o livro nos abre. (CALVINO, 1986, p.45).

 

Para Bachelard (1993), a imaginação, o qual é significada através da imagem não deve ser apreendida, como uma construção subjetiva sensório intelectual, mas através de um acontecimento objetivo integrante de uma imagética, como evento de linguagem. Assim, usar dos sentidos para se obter algo que possa ou não ser real, dar alma aquilo que se reproduz no imaginar de cada ser como um convite à ação transformadora do mundo.

Todo o universo visível é apenas um depósito de imagens e de sinais aos quais a imaginação dará um lugar e um valor relativo; é uma espécie de alimento que a imaginação deve digerir e transformar. Todas as faculdades da alma humana devem ser subordinadas à imaginação, que as requisita todas ao mesmo tempo (Baudelaire, 1993, p. 99).

 

Nesse sentido, a imaginação criadora contribui para a relação entre real e imaginário, em um diálogo transformador na busca pelo conhecimento, pelo aprender e criar, tendo o fazer, o experimentar pelo uso da imaginação como fontes de aprendizagem sensível.

A utilização da imaginação para aprendizagem sensível implica desconstrução e reforma do sujeito. Para Bachelard, referem Barbosa e Bulcão (2004), é através das atividades intersubjetivas exploradas em sala de aula entre professore e aluno que o racionalismo se espalha, o que é fundamental para o ser. Podemos buscar imagens para poder reproduzir aquilo que queremos compreender em relação a tudo que existe no mundo, ou seja, trazer a face divina à visibilidade. Conforme Hillman:

Não precisamos estabelecer o princípio primário: que o pensamento do coração é o pensamento das imagens, que o coração é sede da imaginação, que a imaginação é a voz autêntica do coração, de forma que, se falamos do coração, devemos falar imaginativamente. Uma vez que o princípio primário já nos foi dado por ele, podemos explorar afluentes do rio principal (HILLMAN, 2010, p. 14).

 

Ou conforme Barbosa e Bulcão:

O método fenomenológico é o método da imaginação criadora. O objeto é constituído de traços que são aparentes e de traços que só a imaginação criadora pode perceber, porque só ela pode ir além do que está visível, só ela pode penetrar no objeto mesmo e ver o que está por trás dos fenômenos visíveis. Esta concepção de imaginação como única capaz de desvelar o culto torna-se clara quando Bachelard afirma que a imaginação ultrapassa a realidade, ela vê o invisível, ela vai ao fundo das coisas. A imagem só pode, pois, ser captada pelo método fenomenológico na medida em que tem todo o seu ser na imaginação. A imagem poética escapa à causalidade, ela não possui antecedentes como queria a psicologia, ela “emerge na consciência como um produto direto do coração, da alma, do ser do homem tomado na sua atualidade”. O único método capaz de captar esta imagem, de mergulhar na emocionalidade do ser é, portanto, o fenomenológico; capaz de chegar as margens primeiras, capaz de estar presente, presente à margem no minuto da imagem (BARBOSA; BULCÃO, 2004, p. 47-48).

 

Podemos, através das imagens, instigar nossos alunos para que aflorem sua imaginação para a compreensão de estudos mais complexos, como, por exemplo, aqueles que não podemos ver visualmente, mas sabemos que existem.

A educação é considerada um local de encontros e reencontros especiais na e para o processo de humanização. Estes estão sempre em constantes transformações, e conforme Barbosa e Bulcão (2004, p.50), educação para Bachelard implica fundamentalmente na formação do sujeito.

Palavras-chave: imaginação; educação; aprendizagem sensível.

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