O QUE É EAD? BRICOLAGEM DE CONCEITOS A PARTIR DE CRENÇAS E CONCEPÇÕES DE TECNOLOGIA

Alan Ricardo Costa

Resumo


“EaD” é uma sigla comum na agenda da educação nacional (e internacional). Seu uso recorrente e o crescente número de publicações acadêmicas adotando-a como objeto de estudo, entretanto, não isentam o conceito de ainda ser hermético para uns e interpretado de forma maniqueísta por outros.

A esse respeito, Leffa e Freire (2013) entendem que a EaD online contemporânea, permeada de tecnologias em rede e epistemologias digitais (LANKSHEAR; SNYDER, 2000), pode ilustrar um possível descompasso entre os mundos falado e vivido. Isto é: nem sempre a língua acompanha a evolução das tecnologias, por exemplo, e, mesmo interpretando que o mundo é constituído pela (e na) língua, no sentido que ela o constrói e o modela em suas teias lexicais e sintáticas, é necessário perceber quando o mundo transborda da língua, indo muito além dela (LEFFA; FREIRE, 2013). “O que permanece é o desafio de dar conta de um mundo novo com palavras antigas: a EaD não cabe nas palavras que usamos para descrevê-la” (LEFFA; FREIRE, 2013, p. 13).

É necessário, então, que educadores(as), grupos de pesquisa e projetos de políticas educacionais explicitem suas perspectivas teórico-metodológicas quanto à EaD, enriquecendo o debate e possibilitando avanços nas práticas pedagógicas na referida modalidade. Nesse viés, o presente trabalho tem por objetivo discutir as acepções, crenças e noções subjacentes ou atribuídas à EaD no campo educacional. Com base na bibliografia da área (ALVES, 2009; HEEMAN; Leffa, 2013, entre outros), pretende-se apresentar a ideia de que “EaD”, ainda hoje, é uma bricolagem de conceitos, um construto de múltiplas perspectivas, em disputa.

Para dar conta de tal objetivo proposto, metodologicamente este trabalho caracteriza-se como um estudo bibliográfico, de viés qualitativo. As reflexões propostas partem de interpretações oriundas da leitura de dois grupos de corpus: (1) a literatura da área que propõe e problematiza diferentes concepções de “Ensino a Distância” ou “Educação a Distância”; e (2) imagens disponíveis no Google (maior ferramenta de busca online) inerentes à pesquisa norteada pelas palavras-chave “EaD” e “Educação a Distância”.

No que tange à revisão da literatura da área sobre EaD, é possível delimitar, com base em diferentes autores, o que a EaD “não é” e o que ela “é” (ou, em melhores palavras, o que ela “pode ser”). Quanto ao que ela “não é”, destaca-se o viés histórico: a EaD contemporânea online não é continuidade das modalidades a distância de outrora, como o ensino por correspondência e ensino por rádio, por exemplo (ALVES, 2009). Ainda que tecnologias anteriores possam ser incorporadas ao novo, a atual EaD em rede e as epistemologias inerentes a ela são emergências complexas contemporâneas.

Quanto ao que a EaD “é”, ou “pode ser”, destaca-se seu potencial para romper as visões tradicionais de espaço-tempo, no viés da cibercultura (lévy, 1999; 2010). Nesse sentido, alguns autores optam por ressignificar a palavra “Distância” contida na sigla EaD (e.g. LEFFA; FREIRE, 2013; LEFFA; HEEMANN, 2014). A presença de um(a) educador(a) na EaD, na contemporaneidade, por ser possibilitada e potencializada por tecnologias inúmeras, que aproximam os agentes (docente-discente), ao passo que evidenciam que “distâncias” podem estar em jogo também no ensino presencial.

No que diz respeito à metodologia de busca online por imagens representativas da EaD, os resultados trazem um novo leque de interpretações possíveis. Percebe-se, por um lado, notório grupo de imagens compostas por charges criticando e satirizando a modalidade, bem como reduzindo-a à mera maquinização/produtivismo do trabalho do(a) professor(a) – inclusive insinuando sua substituição por robôs. Por outro lado, ainda que em menor número, algumas imagens indicam o potencial da referida modalidade para a Complexidade (MORIN, 2011), em termos de sinergia com tal paradigma emergente, demarcado sobretudo pela transdisciplinaridade, pela imprevisibilidade, pelo caos, pela autonomia dos aprendentes e pelo caráter holístico, não reducionista, do fazer educacional.

Conclui-se, pelas análises e interpretações efetuadas, que as diferentes concepções sobre a EaD se correlacionam a distintas visões sobre “tecnologias”. Estas, enquanto aliadas ou inimigas, ferramentas que auxiliam ou atrapalham a práxis docente (num olhar mais maniqueísta), acabam ocupando o núcleo da questão e desviando a atenção da prática humana acoplada/indissociável à tecnologia. Destarte, cabe resgatar o pensamento de Paulo Freire, que ainda se mostra atual: a Web, os computadores, os celulares, os recursos digitais... toda e qualquer ferramenta, “em lugar de reduzir, pode expandir a capacidade crítica e criativa” de discentes e docentes; “Depende de quem usa a favor de quê e de quem e para quê” (FREIRE, 1995, p. 98).

 

Palavras-chave: EaD; Tecnologias; Cibercultura; Internet; Complexidade.


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