O REFUGIADO E A LITERATURA INFANTIL: PERSONAGENS DA CRISE HUMANITÁRIA

Caroline Couto, Betina Hillesheim

Resumo


Os fenômenos migratórios, sejam eles físicos ou subjetivos, individuais ou coletivos, são regidos por um sistema complexo de causas e processos múltiplos. Nesse sentido, não se constituem enquanto fenômenos novos ou recentes, mas se atualizam em função dos mais diversos motivos: catástrofes naturais, guerras, busca por melhores condições de vida, sobrevivência, perseguições de ordem política ou religiosa. Nos últimos dez anos, assiste-se a uma intensificação dos fenômenos migratórios, especialmente marcados pela condição do refúgio. Tendo isso em vista, o presente trabalho tem como objetivo apresentar as discussões que vêm sendo realizadas na construção do projeto de pesquisa “Criando nós: histórias de refúgio, crise e literatura infantil”, a qual busca compreender como a literatura infantil e as situações de refúgio operam na construção discursiva da crise humanitária/migratória, a partir da pergunta: como a literatura infantil sobre migrações e refúgio mobiliza afetos e modos (outros) de ser?  Para tanto, ambas – literatura e situações de refúgio – são compreendidas como acontecimentos, que inscrevem a infância como alteridade, que se agitam em linguagem e que escapam das explicações absolutas dos estados das coisas. Nessa perspectiva, entende-se que o refugiado e a literatura infantil vêm se constituindo como personagens importantes na emergência da produção discursiva da crise humanitária/migratória. Há uma especificidade importante naquilo que se refere à noção do refúgio, entre as definições dos movimentos migratórios, o refugiado, é aquele que se re-fugia, foge duas vezes para um lugar seguro. De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), os refugiados estão fora de seu país de origem devido a “fundados temores de perseguição relacionados a questões de raça, religião, nacionalidade, pertencimento a um determinado grupo social ou opinião política, como também devido à grave e generalizada violação de direitos humanos e conflitos armados” (2018, p.8). O relatório de impacto da agência afirma que, a cada três segundos, uma pessoa é forçada a deixar o seu território, o que gerou, ao final de 2016, a marca de 65,5 milhões de pessoas deslocadas por conflitos e perseguições internas.  Estes números têm sido usados para legitimar as expressões ‘crise humanitária’ e ‘crise migratória’, associadas aos deslocamentos atuais. No que se refere à literatura infantil, evidencia-se o caráter pedagógico e transgressor, fazendo com que a literatura não se inscreva apenas em um polo ou outro, interessando justamente o que se dá no entre: entre a literatura e o infantil, entre o pedagógico e o transgressor, num uso estrangeiro da língua que rompe com as definições estanques e dominantes. Ao atingir o estatuto de arte literária, a literatura infantil faz vibrar outros modos de enlace entre o mundo infantil e o mundo adulto, produzindo, assim, modos outros de ser e estar no mundo. Nesses termos, a literatura não se compromete com verdades que se pretendem universais, configurando-se como elemento indispensável ao pensamento ético. Assim, ainda que a literatura obedeça a determinados códigos, ela compromete estes mesmos códigos a todo o tempo: a literatura não se alia a estruturas fixas do signo e, ao repetir, ela também transgride. Feitas tais considerações, toma-se, no âmbito desta pesquisa, livros de literatura infantil que tratam do tema das migrações e refúgio como materialidade de análise, a partir dos estudos pós-estruturalistas. Os critérios para a escolha da materialidade em questão são: trabalhar com textos literários escritos ou traduzidos para o português; que componham a narrativa na experiência da migração, exílio ou refúgio; que carreguem consigo a infância, como destino; que sejam reais, sem que o critério esteja na “verdade” que carregam, mas na ordem do Notável, do Interessante ou do Importante (cf. DELEUZE; GUATTARI, 1993). Assim, a partir da pesquisa em catálogos de editoras brasileiras foram selecionados, por ora, dezesseis títulos, utilizando como critério de seleção a data de publicação das edições brasileiras – excetuando-se dois títulos com data de publicação de 2006, todos os outros foram publicados a partir de 2010, período a partir do qual as discussões sobre as migrações e o refúgio se intensificam e legitimam a crise humanitária/migratória. Os títulos são: Um outro país para Azzi, Para Onde Vamos, Olhe para mim, O cometa é um sol que não deu certo, O barco das crianças, Nenhum peixe aonde ir, Migrar, Eloísa e os bichos, Migrando, Diálogos de Samira - Por dentro da Guerra Síria, Dois meninos de Kakuma, A viagem, A chegada, A menina que abraça o vento - a história de uma refugiada congolesa, A cruzada das crianças, A viagem dos elefantes. A partir disso, a proposta está em analisar estas narrativas pensando na seguinte composição: como elas foram produzidas a partir da chamada crise humanitária/migratória, ao mesmo tempo em que atuam na própria produção da crise humanitária/migratória. Em outros termos, trata-se de buscar compreender como o refugiado e a literatura infantil têm suas existências entrelaçadas produzindo modos de ser, existir, resistir e (re)existir. As personagens desta escrita são muito mais pontos rizomáticos do que Conceitos – grandes explicações fechadas. Pontos rizomáticos, enquanto sistemas conceituais abertos, personagens-princípios de conexão e multiplicação do heterogêneo. Dessa forma, a produção inicial de dados parece apontar, nesse encontro entre o refugiado e a literatura infantil, para a construção de um sentido sobre a dinâmica do refúgio, associado à noção de crise humanitária/migratória: uma crise que é de todos, que não tem um lugar específico, nem uma língua, uma cor ou um traço característico. Ao assumir o lugar de enunciar os não ditos, o obscuro e a não-verdade, a literatura também ultrapassa limites, desloca códigos e arranjos, abre caminhos para a transgressão e a revolta. As narrativas produzem o significado de que a condição de ser refugiado pode ser ocupada a qualquer momento por qualquer sujeito, produzindo o modo de relacionamento com os refugiados sempre em relação de exterioridade. Tenta-se, assim, marcar que refugiado é sempre o outro. Mas, ao conhecer Azzi, Samira, Kikoto, Fonchito e tantos outros e histórias, personagens dos livros acima, a crise humanitária/migratória parece assumir contornos...humanos. Afinal, o que pode a arte? A arte é sensível e dura. Insuportável, às vezes. Potente, sempre. A estética educa e, assim, educa também para a alteridade. A arte é experiência que abre possibilidades, mundos, traz a diferença, o estranho e o plural. A arte gere no detalhe, governa com sutileza, causa espanto, lágrimas e gargalhadas, desejo e repulsa – um infinito de efeitos para os quais não há controle. A arte dói.

Palavras-chave: refúgio; literatura infantil; crise humanitária.


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