PANDEMIA E SERVIÇOS DE SAÚDE MENTAL: O QUE MUDOU ENTRE 2017 E 2021?

Gabriella Soares Hopp, Eduarda Gerlach Priebe, Edna Linhares Garcia, Laura Silva Geller, Letiane de Souza Machado, Maria Carolina Magedanz, Suzane Beatriz Krug, Valkíria Schuck Verardi

Resumo


Os Centros de Atenção Psicossociais (CAPS) acolhem pacientes com transtornos mentais e atuam como um importante dispositivo da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). Esses, são serviços de saúde comunitários oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e estão inseridos na rede de Atenção Especializada em Saúde. Com a pandemia de Covid-19, as pessoas precisaram lidar com o isolamento social e as consequências deletérias não se resumem apenas à saúde mental, mas também no que concerne ao aumento das desigualdades no Brasil, intensificando o cenário de crise socioeconômica. Frente ao exposto, objetiva-se refletir sobre as mudanças de perspectivas referentes às atividades dos serviços de saúde mental advindas do contexto pandêmico, em um município do interior do Rio Grande do Sul. Este estudo é um recorte da pesquisa “Produção de Sentidos Acerca da Drogadição: panorama do uso de drogas sob o enfoque do adolescente e da família na intersecção do contexto escolar, PSE e CAPSia…”. Os dados foram obtidos por meio de entrevistas semiestruturadas, realizadas em dois anos diferentes (2017 e 2021), com profissionais que atuam nos CAPS. Nesse município, os CAPS são divididos em três modalidades: infância e juventude, adulto, e álcool e outras drogas. Dois desses foram entrevistados em 2017 e 2021 e o outro, incluído no último ano. Os dados produzidos foram analisados a fim de identificar e refletir sobre as principais mudanças nos serviços. A análise de dados se deu na perspectiva proposta por Mary Jane Spink, acerca da produção de sentidos. Percebeu-se  mudanças expressivas, como o aumento dos atendimentos por meios digitais (teleatendimento) e as visitas domiciliares aos usuários. Ampliou-se o processo de comunicação e a perspectiva nos modos de exercer os trabalhos em rede. Por conta do distanciamento necessário devido a pandemia, ocorreu uma redução nas atividades realizadas em grupos e nas oficinas dos serviços. Assim, por um lado, identificou-se nas falas dos profissionais um sentimento de fragilização no vínculo entre os usuários e os CAPS, uma vez que esse enlace era fortalecido ao longo do desenvolvimento das atividades, de forma presencial, que mantinha o usuário mais tempo no serviço. Paralelamente, houve um aumento dos atendimentos individuais e um estreitamento de laços dos pacientes com suas famílias, dado que o isolamento possibilitou não só a aproximação dessas com os usuários em casa, como também inteirar-se do tratamento proposto e de suas narrativas individuais. Assim, nota-se a importância da família no processo de suporte ao tratamento de saúde mental e a urgência de implementar projetos relacionados à promoção do vínculo familiar. Ainda, não houve um aumento da demanda, mas sim uma mudança no perfil dos usuários (jovens) e no tipo de queixa (ansiedade). Os novos pacientes chegam aos serviços através de encaminhamentos realizados pela atenção básica - reafirmando a importância no fluxo de referência e contrarreferência - e pela busca espontânea. O fortalecimento dos vínculos entre os usuários e seu núcleo familiar, oportuniza a ampliação do trabalho em saúde com a comunidade. O teleatendimento e o aumento das visitas domiciliares foram estratégias determinantes para o cuidado em saúde mental na pandemia. Nessa perspectiva, pode-se ressaltar a urgência de elaboração de novos modos de comunicação entre paciente e serviço, potencializando a adesão e continuidade do plano terapêutico.



ISSN 2764-2135