UM NOVO CAPÍTULO NA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: PIBID E AS AÇÕES COLETIVAS PARA A APRENDIZAGEM DA DOCÊNCIA

Carla Cristiane Mergen, Silvana Soares Rodrigues dos Santos, Felipe Gustsack

Resumo


ResumoPretendemos, com este artigo, relatar algumas experiências de aprendizagem da docência como ação coletiva que podem contribuir para a formação docente inicial e continuada. O lócus do qual emergem essas experiências é o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência realizado pela Universidade de Santa Cruz do Sul, o qual é denominado PIBID/UNISC, professor em formação: tecendo possibilidades pedagógicas. A intenção, dentre outras, é tecer reflexões acerca das ações de aprendizagem coletiva da docência realizadas na Escola Municipal de Ensino Fundamental Menino Deus, localizada na periferia do município de Santa Cruz do Sul/RS. A metodologia que utilizamos foi descrever o vivido segundo uma abordagem fenomenológica para chegar às reflexões pautadas pelo viés da teoria da complexidade. Alguns dos resultados obtidos nos mostram que uma das inovações do PIBID está no fato de permitir concebermos a aprendizagem da docência como ação coletiva que se inventa nas interações entre professores que atuam em diferentes lugares pedagógicos pela articulação entre universidade e escola.Palavras-chave: Docência. Experiência. PIBID. Educação básica. Aprendizagem.AbstractWe intend, with this article, to report some experiences of teaching learning as a collective action that contribute to the initial teacher training from the Institutional Scholarship Program of the teaching research iniciation carried out by the University of Santa Cruz do Sul which is denominated PIBID / UNISC, teacher in formation : weaving pedagogical possibilities. The intention, beyond others one, is to provide reflections around the collective learning actions carried out by the Escola Municipal de Esnino Fundamental Menino Deus, located in the municipal periphery from Santa Cruz do Sul / RS. The methodology we get to describe the experience lived was based on a phenomenological approach with a bias in complexity theory. Some of the results obtained show us that the one of the inovation from this program is conceives the teaching learning as a collective action that comes from the interactions between teachers who act in diferent pedagogical places by the articulation between university and school.Key words: Teaching, experience. PIBID, Basic Education. Learning.1Mestranda do PPGEdu/UNISC.2 Pós-graduada em Orientação Educacional.3 Doutor em Educação pela UFRGS.1 ApresentaçãoO Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID) iniciou efetivamente em 2009 e se realiza pela parceria entre universidades e escolas públicas de Educação Básica de todo o país. O programa surgiu com o intuito de potencializar a formação docente inicial através da inserção dos licenciandos no futuro ambiente de trabalho: a escola, concebendo essa última também como ambiente de formação docente e de consolidação da identidade profissional. Assim, o PIBID não é somente um programa que concede bolsas para que licenciandos estejam nas escolas, mas “é uma proposta de incentivo e valorização do magistério e de aprimoramento do processo de formação de docentes para a educação básica” (GUIMARAES apud GATTI et al., 2014, p. 6).É possível dizer, através de leituras e estudos, principalmente, das pesquisas de Gatti, Barretto e André (2011), as quais mostram as potencialidades desenvolvidas pelo programa, que o mesmo cumpre com os seus objetivos, que são:I – incentivar a formação de docentes em nível superior para a educação básica;II – contribuir para a valorização do magistério;III – elevar a qualidade da formação inicial de professores nos cursos de licenciatura, promovendo a integração entre educação superior e educação básica;IV – inserir os licenciandos no cotidiano de escolas da rede pública de educação, proporcionando-lhes oportunidades de criação e participação em experiências metodológicas, tecnológicas e práticas docentes de caráter inovador e interdisciplinar que busquem a superação de problemas identificados no processo de ensino-aprendizagem;V – incentivar escolas públicas de educação básica, mobilizando seus professores como co-formadores dos futuros docentes e tornando-as protagonistas nos processos de formação inicial para o magistério;VI – contribuir para a articulação entre teoria e prática necessárias à formação dos docentes, elevando a qualidade das ações acadêmicas nos cursos de licenciatura;VII – contribuir para que os estudantes de licenciatura se insiram na cultura escolar do magistério, por meio da apropriação e da reflexão sobre instrumentos, saberes e peculiaridades do trabalho docente (BRASIL, 2013).Concordamos com os estudos acima, porém entendemos que as contribuições do PIBID para a valorização do magistério ainda carecem de pesquisas e reflexões que possam dimensionar sua extensão e também do que podemos entender como valorização. Complementarmente, todavia, pensamos que ao inserir licenciandos4 nas escolas de Educação Básica – EB, este programa leva a pensar a docência pelo viés da experiência de aprender a ser professores com professores que ali atuam profissionalmente. Com isso, pensamos, a docência se consolida como uma aprendizagem em um sentido diferente daquele que costumeiramente concebíamos. Ou seja, pela experiência de estar na escola na condição de aprendizes de professores, os licenciandos oportunizam aos professores da escola a experiência de serem professores de outro tipo de estudantes. Essa experiência dos professores da escola tem a ver consigo mesmos e com os desafios de sua formação continuada, porque implica na reflexão sobre seus afazeres cotidianos, podendo levá-los à práxis e a superar a tradicional e infindável dicotomia entre teoria e prática. Nesse sentido, pois, admitimos que o PIBID também contribui para a valorização do magistério.Cabe lembrarmos que a experiência é o que toca, e ao tocar, transforma. Para Larrosa (2011, p. 22), “a experiência é atenção, escuta, abertura, disponibilidade, sensibilidade, vulnerabilidade, ex/posição”. Estar ex/posto à experiência “produz alguns afetos, inscreve algumas marcas, deixa alguns vestígios, alguns efeitos” (LARROSA, 2011, p. 22). A experiência que provém de ações coletivas – universidade e escola – para a/com a “infância docente” através do PIBID é um marco para pensarmos a educação do futuro. Nessa direção é que propomos apresentar as reflexões que constituem o presente texto.2 Começos ou infância da docênciaInfância nos remete aos primeiros anos, aos começos. Então, é possível dizer que o PIBID possibilita um olhar in loco das infâncias docentes, aos seus momentos primeiros, às primeiras experiências. Para complementar, Larrosa (2015, p. 185), afirma que:4 Com esta nota declaramos nosso profundo respeito às questões de gênero, porém neste artigo optamos por grafar, especialmente as palavras ‘licenciandos’ e ‘professores’ na sua flexão masculina, seguindo a tradição do campo científico.A infância, entendida como um outro, não é o que já sabemos, mas tampouco é o que ainda não sabemos. O que ainda é desconhecido justifica o poder do conhecimento e inquieta completamente a sua segurança. O que ainda não sabemos não é outra coisa senão o que se deixa medir e anunciar pelo que sabemos, aquilo que o que sabemos se dá como meta, como tarefa e como itinerário pré-fixado. A arrogância do saber não apenas está na exibição do que já se conquistou, mas também no tamanho de seus projetos e de suas ambições, em tudo aquilo que ainda está por conquistar, mas que já foi assinalado e determinado como território de conquista possível.Ao realizarmos a analogia da infância com a docência e seus começos, como um território desconhecido, procuramos compreender que potencializar esses começos, essa infância docente através da interlocução e aproximação da universidade com a escola de EB pode oportunizar outros inícios, inclusive este que ora realizamos ao repensar a docência em nosso estudo.Pensar a docência como uma aprendizagem coletiva a partir das experiências possibilitadas pelo PIBID, implica pensar que quando novos atores entram em cena, a cena pode ser modificada. Para (GUIMARAES apud GATTI et al., 2014, p. 5)Com o seu desenho, o PIBID pode ser formação inicial para os alunos das licenciaturas; é, também, formação continuada para os professores das escolas públicas e para os professores das instituições de ensino superior participantes, abrindo-lhes amplas oportunidades de estudos, pesquisa e extensão.Em outras palavras, o PIBID apresenta a dinâmica complexa da formação docente inicial e continuada, pois “a ação dos licenciandos e de seus orientadores tem o potencial de elevar a qualidade do trabalho nas escolas públicas e das instituições formadoras (GUIMARAES apud GATTI et al., 2014, p. 5)”. Diante disso, todos ganham: universidade, escola e seus protagonistas. Isso mostra novos começos para uma docência já assumida como acabada para os professores da Instituição de Ensino Superior e das escolas, assim como a boniteza de se pensar e experimentar a docência para os licenciandos, elevando a ideia de formação para o patamar de um devir coletivo, que pode configurar para todos os envolvidos uma compreensão do que possa ser essa identificação com a profissão docente, com o que se entende por identidade docente.António Nóvoa5 renomado pesquisador português sobre a formação de professores, cita em muitos de seus trabalhos a importância da formação docente, da essência do trabalho docente como ações coletivas que se configuram com a ‘união de dois mundos’, no caso, universidade e escola, para a formação docente mais significativa (informação verbal). Para isso, afirma que é preciso que os docentes tenham um conhecimento profissional, o qual é construído com a aproximação entre universidade e escola, no caso do PIBID, na qual uma identificação profissional pode ser construída interna e externamente. Para o mesmo pesquisador, o importante é que os futuros docentes aprendam a docência na docência, na escola, onde, desde os primeiros dias podem ter a oportunidade de interagir com atividades inerentes a essa profissão, acolhidos por profissionais mais experientes e, a partir disso, começar a construir a identidade profissional docente.Ao responder à indagação, em uma entrevista, sobre a construção da identidade docente, Nóvoa (2016) ressalta que o processo identitário docente, para ser potencializado através da experiência, deve começar nos primeiros dias na universidade. Segundo ele:Identidade não se ensina, é um processo que está sempre em caminho. Portanto, não é um dado adquirido. Nós temos uma vida inteira em que se constroem e se reconstroem processos identitários. Mas essa caminhada deve começar no primeiro dia de universidade. Há maneiras simples para isso. As faculdades de medicina estão dentro de hospitais. Por que isso? Porque é ali que se dá a profissão e, portanto, muito naturalmente há um processo de socialização com o futuro ambiente de trabalho. A primeira coisa que os jovens estudantes de medicina fazem nos primeiros dias de aula é entrar na universidade com um jaleco de médico e um estetoscópio ao redor do pescoço. Eles têm 18 anos, não sabem nada de medicina ainda, mas já se comportam como médicos, já têm um traço identitário como médicos. Mas nas licenciaturas temos alunos que passam cinco anos na faculdade sem nunca entrar em uma escola, sem nunca ter contato com um professor ou com um aluno (NÓVOA, 2016, p. 2).Fica claro, segundo o exemplo da citação que se refere a formação médica, que o futuro profissional está diante de uma formação com grande potencial, já que está na universidade e ao mesmo tempo no futuro ambiente de trabalho, construindo sua identidade profissional. No entanto, sem a experiência possibilitada pelo PIBID, por que isso não ocorre na aprendizagem da docência? Por que as licenciaturas não adotam a mesma dinâmica, independentemente de programas como o PIBID?5 Palestra proferida pelo professor António Nóvoa na FURB, em 06 de junho de 2017, cujo tema foi “Formar-se professor”.Segundo Gatti, Barreto e André (2011, p. 5), “problemas têm sido colocados quanto à estrutura e dinâmica dos currículos dos cursos de formação de professores [...] especialmente no que se refere às relações teoria-prática, formação acadêmica – trabalho na escola”. Emerge dessas relações o imperativo de pensar em ampliar o PIBID, a fim de inserir o maior número possível de licenciandos em uma “residência pedagógica” de aprendizagem da docência. Além disso, ampliar a interlocução entre as licenciaturas, possibilitaria aprender relacionando, pensando, articulando as informações e a maioria dos cursos de licenciatura ainda não faz isso. Acreditamos que seja algo importante para pensarmos a docência como aprendizagem coletiva na boniteza de ser uma infância do aprender a formar-se professor.A partir do que vimos, PIBID apresenta uma dinâmica complexa para a formação docente inicial e continuada, pode ser considerado como uma ‘residência pedagógica’ que precisa ser ampliada para o maior número possível de licenciandos. Em recente palestra na António Nóvoa6 fala da importância da formação docente, da essência do trabalho docente (informação verbal). Para isso, o pesquisador afirma que é preciso que os docentes tenham um conhecimento profissional, que se constrói na escola, assegura que a marca pedagógica da docência se constrói na escola, uma vez que quando experiências de docência e de formação docente são compartilhadas, novas técnicas e metodologias podem surgir e com isso potencializar a formação docente inicial e continuada, além de incrementar o currículo tanto na escola como na universidade.O que é realizado na escola é um reflexo da formação docente e, se quisermos pensar em um profissional diferenciado para atuar nas próximas décadas, temos que pensar também no formar-se7 docente como ações coletivas de aprendizagem, de pesquisa, de planejamento. Antes do PIBID, a profissão docente apresentava uma dimensão um tanto quanto individualista. Na aproximação entre universidade e escola, a aprendizagem da docência, que antes se6Palestra proferida pelo professor António Nóvoa na FURB, em 06 de junho de 2017, cujo tema foi “Formar-se professor”.7 Para Libanio (2001, p. 12), formar-se é uma arte. Procura, em sua obra “corrigir um pouco a carga etimológica negativa do termo “formar”, colocando-o na forma pronominal reflexiva”. Para o mesmo autor, “formar-se corrige a passividade “e a ideia de (forma)ção, como molde pré-estabelecido passa a ter um cunho mais reflexivo, que depende das experiências e das vivências de cada um na aventura de se tornar professor ou professora, de formar-se.apresentava individual, se mostra como experiência coletiva onde professores acolhem na escola pública de EB os futuros docentes, em formação, e juntos com eles vivem experiências coletivas que podem fortalecer a identidade profissional de ambas as partes e propiciar trocas entre professores da escola, professores da universidade e com os próprios licenciandos.Ao estar na universidade e na escola, uma posição profissional pode ser construída interna e externamente. Para Nóvoa, o importante é que os futuros docentes aprendam a docência na docência, na escola. O mesmo autor faz uma analogia entre a formação de um estudante de medicina aprende sua profissão estudando na universidade, mas também estando em um hospital, onde, desde os primeiros dias interage com atividades inerentes a essa profissão, acolhido por profissionais mais experientes. De maneira semelhante, o PIBID insere o licenciando nas escolas, como os cursos de medicina inserem seus estudantes em hospitais. Pensamos que, para potencializar ainda mais a aprendizagem da docência e a formação continuada tanta na escola quanto na universidade, se torna importante ampliar o programa para mais horas e para mais licenciandos, pois, nem todos têm a oportunidade de aprender a docência na docência através do PIBID, desde os primeiros semestres.Para dar continuidade às nossas reflexões, Nóvoa (2016) que, ao responder à indagação, em uma entrevista, sobre a construção da identidade docente, ressalta que o processo identitário docente, para ser potencializado através da experiência, deve começar nos primeiros dias na universidade. Segue a pergunta: “A universidade pode ou consegue ensinar a formar identidade para que se queira ser docente, para que um jovem se enxergue como docente8?” Para esse pesquisadorIdentidade não se ensina, é um processo que está sempre em caminho. Portanto, não é um dado adquirido. Nós temos uma vida inteira em que se constroem e se reconstroem processos identitários. Mas essa caminhada deve começar no primeiro dia de universidade. Há maneiras simples para isso. As faculdades de medicina estão dentro de hospitais. Por que isso? Porque é ali que se dá a profissão e, portanto, muito naturalmente há um processo de socialização com o futuro ambiente de trabalho. A primeira coisa que os jovens estudantes de medicina fazem nos primeiros dias de aula é entrar na universidade com um jaleco de médico e um estetoscópio ao redor do pescoço. Eles têm 18 anos, não sabem nada de medicina ainda, mas já se comportam como médicos, já têm um traço identitário como médicos. Mas nas licenciaturas temos alunos que passam cinco anos na faculdade sem nunca entrar em uma escola, sem nunca ter contato com um professor ou com um aluno (NÓVOA, 2016, p. 2).8 Pergunta respondida por António Nóvoa para a Revista Ensino Superior, disponível no link <http://www.revistaeducacao.com.br/o-lugar-da-licenciatura/>. Acesso em: 1 set. 2017.O futuro profissional, ao estar articulando sua aprendizagem e a constituição de sua identidade profissional através de ações coletivas construídas entre o ambiente de formação e o futuro ambiente de trabalho, alarga as possibilidades de uma formação mais significativa em relação à construção da identidade profissional, à relação entre teoria e prática, à formação mais significativa do ponto de vista do humano e de suas possibilidades. Fica evidente que o futuro profissional está diante de uma formação com grande potencial. Mostra-se a possibilidade e a importância da profissão para a formação e da formação para a profissão. A partir disso, se torna relevante trazer a profissão para dentro das instituições de formação. O PIBID já pode ser considerado uma possibilidade de amenizar as distâncias entre a universidade e a escola, mas ainda é importante que o programa se consolide como política pública e se expanda. Já é “uma luz no fim do túnel”, uma possiblidade de amenizar as polaridades, as distâncias entre a formação e atuação como se fossem dois mundos diferentes.Por isso, é importante que o PIBID faça parte da cultura institucional das universidades e das escolas públicas de EB e que se consolide como uma responsabilidade permanente nas instituições, não sendo mais uma excepcionalidade, mas uma rotina.Para concluir nossas reflexões referentes à infância docente, começos, primeiras experiências, os primeiros anos, ressaltamos que o PIBID, com sua estrutura, mesmo que timidamente, está redesenhando um novo capítulo na história da educação, pois está colaborando para a aprendizagem da docência na docência e, pensar na melhoria da EB está inerente a pensar no formar-se docente que se consolide através de experiências coletivas no contexto da universidade e da escola.3 PIBID/UNISC, professor em formação: tecendo possibilidades pedagógicasNa Universidade de Santa Cruz do Sul, o programa é denominado “PIBID/UNISC: Professor em formação: tecendo possibilidades pedagógicas” e os cursos de licenciaturaformam subprojetos. Nessa universidade há, ao todo e até a presente data, doze subprojetos, que são: Letras Português, Letras Inglês, Letras Espanhol, Informática, Matemática, História, Interdisciplinar9, Química, Física, Biologia, Educação Física e Pedagogia. O programa possui doze escolas parceiras, sendo estas de ensino fundamental e médio, municipais e estaduais.Os bolsistas desses subprojetos, coordenados por docentes bolsistas orientadores da universidade, chegam nas escolas públicas de EB e ali têm a oportunidade de realizar oficinas, projetos, intervenções, monitorias, atividades de gestão e interagir em diferentes espaços escolares, como salas de aula, laboratórios, bibliotecas, espaços recreativos e desportivos, além de conhecer a realidade da comunidade escolar em que a escola está inserida. Também, têm a oportunidade de conhecer a organização pedagógica da escola como projetos pedagógicos, regimentos, filosofia, demais projetos, reuniões de formação, conselhos de classe. Para isso, contam, primeiramente, com os Bolsistas de Supervisão de Iniciação à Docência, que estão na escola para acolhê-los e orientá-los e, em um segundo momento, com professores regentes colaboradores10.O programa vem colaborando para a formação docente inicial de muitos licenciandos, uma vez que está inserindo os futuros professores na complexidade das escolas públicas e, com isso, propiciando experiências em diferentes aspectos pedagógicos tais como: gestão, docência assistida, monitorias, intervenções em oficinas e em projetos de aprendizagem. Nos que-fazeres da docência e nas reflexões sobre os mesmos, os pibidianos têm a oportunidade de construir sua identidade profissional, articular experiências que podem contribuir com a sua formação inicial e com a formação continuada dos docentes que interagem com os bolsistas na escola e por que não dizer, da universidade, já que fomenta a formação inicial, a continuada e a pesquisa em educação.O PIBID/UNISC apresenta uma maneira de ser e estar na escola através da relação entre escola pública de EB e universidade. Estar na escola na condição de aprendiz e também de alguém que está em formação, pode levar a uma formação com mais embasamento, já que ao mesmo tempo em que se interage, se realiza um movimento de reflexão sobre as ações9 Corresponde à união das disciplinas de História e de Geografia em um subprojeto.10 Professores colaboradores são aqueles que não são bolsistas do programa, mas que realizam atividades relativas á docência com os bolsistas de iniciação à docência.realizadas e se pensa o vivenciado com o estudado. Esse ir e vir entre teoria e prática potencializa a formação docente e pode formar profissionais mais preparados para exercer a docência de acordo com uma identidade profissional que se constrói na docência, no decorrer dos anos de formação e na formação continuada.Mesmo com o pouco tempo de atuação do programa, é possível concluir, com base no que já foi relatado, que o PIBID/UNISC possui impacto significativo na formação inicial dos licenciandos, na formação continuada nas escolas públicas de EB e na Universidade, colaborando, ainda, para uma interação entre pesquisa e extensão.4 PIBID/UNISC na Escola Municipal de Ensino Fundamental Menino Deus: ações coletivas em permanente devirO PIBID/UNISC faz parte do cotidiano da Escola Municipal de Ensino Fundamental Menino Deus desde 2010. Nesses anos, muitos licenciandos participaram de atividades coletivas diversas que puderam propiciar experiências para a aprendizagem da docência na docência. Além de fomentar a formação inicial, o programa também proporciona um movimento que pode ser considerado benéfico na escola, pois, ao receber os pibidianos11, os professores procuram planejar aulas diferenciadas, refletir juntamente com os bolsistas sobre as atividades realizadas, pensar em conduções e em reconduções que sejam pertinentes para a aprendizagem discente.A EMEF Menino Deus, localizada em uma região de periferia da cidade de Santa Cruz do Sul/RS é uma das maiores da rede pública municipal em número de alunos matriculados que participa do programa, compôs o primeiro grupo de escolas participantes do PIBID/UNISC. Em 2010, cinco subprojetos atuavam na escola. Hoje, são dez subprojetos que atuam nos três turnos de funcionamento da instituição, apesar de o número de bolsistas de iniciação à docência ter diminuído gradativamente, sendo que em maior número, nos dois últimos anos. Na escola, as atividades com os bolsistas ocorrem de diversas maneiras como oficina, intervenção, projeto, monitoria e apoio à gestão.11 Neologismo criado para definir os Bolsistas de Iniciação à Docência.As atividades das oficinas são realizadas no turno oposto àquele em que o aluno estuda, onde são apresentados temas variados de caráter interdisciplinar para a realização de atividades como escrita, desenho, pintura, interpretação, cálculos, resolução de problemas, ou ainda, existe a possibilidade de complementar o conteúdo abordado anteriormente em sala de aula. Na modalidade de intervenção, os bolsistas de iniciação à docência acompanham as atividades do professor em sala de aula, auxiliando-os no planejamento e no desenvolvimento das atividades e interagindo com os mesmos e com as turmas de alunos diretamente. Na modalidade de apoio à gestão são realizadas atividades que auxiliam toda a área administrativa da escola, tais como orientação a alunos, pais, organização de projetos, horários, coordenação de reuniões pedagógicas, de estudos, apoio aos professores, conselhos de classe, entre outros.Na escola, em 2017, os subprojetos Educação Física, História, Química e Matemática estão desenvolvendo oficinas. Intervenções são realizadas pelos subprojetos de Pedagogia, Educação Física, Letras Espanhol, Informática, História, Física, Biologia, Matemática, Letras Português e Letras Inglês. O apoio à gestão ocorre com bolsistas dos subprojetos de Pedagogia e de História. Projetos interdisciplinares são desenvolvidos pelos subprojetos de Informática e Letras Português. No momento, não contamos com nenhum bolsista dos subprojetos de Geografia e Interdisciplinar, sendo que este último une as licenciaturas de História e de Geografia. No momento, contamos com uma média de 24 bolsistas, mas já tivemos atuando na escola um número maior. Podemos afirmar que o programa já faz parte da cultura escolar. Os pibidianos se sentem à vontade para estar na sala dos professores, tomar um café e trocar ideias – geralmente de caráter pedagógico – e isso ocorre de maneira recíproca. Além disso, professores, funcionários, pais e alunos vêem os pibidianos como parte da escola, ou seja, já houve na comunidade escolar um processo de consolidação do PIBID como parte da escola, como regra, não como exceção.As seis Bolsistas de Supervisão de Iniciação à Docência da escola se reúnem semanalmente e, nesses momentos, avaliam as atividades já realizadas e planejam as futuras, pensando sempre no melhor para desenvolver as potencialidades e colaborar para a dinâmica de formação inicial e continuada da escola. Além disso, participam de seminários e cursos não só como ouvintes, mas também com relatos de experiências, artigos, textos e resumos que tecem reflexões referentes ao PIBID e suas potencialidades para a formação docente. Tambémincentivam os pibidianos para que façam o mesmo, para que divulguem o que é realizado através do programa, mostrem as potencialidades e as dificuldades que podem emergir a partir do mesmo. Então, o programa, além de incentivar a aprendizagem da docência na docência de maneira coletiva e permanente, ainda estimula a pesquisa, a reflexão e a formação continuada na escola e na universidade, uma vez que os bolsistas além de trazerem suas experiências para a escola, da escola também levam experiências para a universidade.Desde 2010, projetos de grande relevância já foram desenvolvidos, com o apoio do PIBID e se mantêm até os dias atuais, como o "Dia da Comunidade na Escola", "Mostra de Trabalhos", "Grêmio Estudantil" e “Maratona UNISC de Computação”. O balanço dos sete anos do programa na escola aponta um ganho considerável de conhecimento, de experiências, de estudos, de reflexões e de pesquisas para todas as partes envolvidas.Então, a partir dessas breves considerações, evidencia-se que o programa na PBID/UNISC na EMEF Menino Deus possui impacto tanto para a formação inicial dos pibidianos, como a continuada dos professores da escola, da coordenação pedagógica que recebe um sopro de curiosidade acadêmica em relação às propostas da escola, às documentações como projeto pedagógico, regimento escolar, filosofia, avaliação, metodologia, plano de trabalho. Além disso, podemos dizer que os alunos da escola também são beneficiados, pois estão inseridos em um contexto coletivo de aprendizagem, de estudo, de formação, pensado para que tudo ocorra da melhor maneira possível. Para que o planejamento, as ações, as avaliações e as reconduções em relação às atividades sejam realizadas com a qualidade desejada pela maioria.O que emerge disso é a certeza de que o programa PIBID continue. Estudar para ser um professor, que está diretamente interagindo com o humano, requer uma disposição pessoal que permita conhecer-se na profissão, se consolidar como docente reflexivo. O PIBID colabora para isso.5 Caminhos que seguem: o PIBID como política pública para formação docenteCom o PIBID, os professores das escolas públicas de EB se tornam co-formadores dos futuros docentes. Acolher o ‘aprendiz da docência’ em seu futuro ambiente de atuação,possibilita a aprendizagem da docência a partir de ações coletivas: universidade e escola trabalham juntas, se aproximam para potencializar a formação docente. Assim, “o PIBID está escrevendo um novo capítulo na história da educação brasileira” (GUIMARAES apud GATTI et al., 2014, p. 6).O PIBID está sendo um movimento positivo, renovador e inovador para realizar a transformação, mesmo que pouco a pouco, para a formação de professores e a busca pela qualidade desejada na EB. O fato de o programa estar alicerçado pela CAPES, uma entidade de pós-graduação, é muito relevante, pois além de garantir a formação inicial e a continuada, ainda fomenta a pesquisa em educação. Na potencialidade do PIBID também transparece sua fragilidade. Isso ocorre porque ao mesmo tempo em o programa é inovador, promove a formação inicial e continuada, a aprendizagem da docência na docência, a construção da identidade profissional, está inerente à possibilidade de não ter continuidade, ou seja, se as políticas públicas de incentivo deixar de existir, muito do que foi conquistado tende a retroceder e a formação docente inicial e a docência na EB voltarão a estar em ‘mundos diferentes’. Se não caminharmos para a aproximação desses mundos, dificilmente conseguiremos potencializar a formação docente como coletividade.Para consolidarmos uma educação diferenciada do ponto de vista do humano e suas possibilidades de aprendizagem coletiva, é muito importante que na formação docente isso já ocorra, uma vez que se torna um pouco difícil que futuros professores construam sua autonomia profissional, se na formação docente isso não estiver sendo pensado e trabalhado. Torna-se imprescindível promover em formação modos de organização que reforcem as dimensões coletivas de trabalho docente e de aprendizagem e isso perpassa pela universidade, pela escola, pela aproximação entre ambas. Para isso, surge a necessidade de consolidar mudanças nas licenciaturas em relação aos desdobramentos nos cotidianos de formação.Ao romper com as barreiras que existiam entre universidade e escola, o PIBID, de forma colaborativa, está contribuindo com o aprofundamento de reflexões acerca das necessidades, problemas e potencialidades das escolas públicas. E, a partir disso, possibilita a criação de redes de ação, reflexão e transformação dessa realidade escolar com base na formação docente potencializada, construção da identidade profissional e formação de ideais de educação escolar. As ambições teóricas e práticas se entrelaçam para consolidar aaprendizagem da docência com a aproximação da universidade e escola e, com isso, amenizar a questão nevrálgica que polarizava a teoria na academia e a prática do “chão da escola”. Com o PIBID, teoria e prática se constituem nos ambientes de formação, na escola e na universidade.A docência exige um desafio de alta complexidade e exige diálogo, colaboração, segurança e competência profissional. Enfim, exige que experiências coletivas de aprendizagem façam parte da educação como um devir, não como uma exceção. Então, se torna pertinente que o programa PIBID seja uma regra para a formação docente, não algo que corre o risco de não ter continuidade, uma possibilidade de ser extinto. Não se pode acabar com o que está dando certo. Afinal, uma educação de qualidade é o caminho para o desenvolvimento de uma nação, pois, nas palavras de Nóvoa (2017), é na escola pública que se ganha ou se perde um país.

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