A correspondência de Caio F. e as escritas de si

Mara Lúcia Barbosa da Silva

Resumo


RESUMO: No artigo intitulado Mário de Andrade: epistolografia e processos de criação, Marcos Moraes afirma que a correspondência de escritores abre-se, normalmente, para três grandes perspectivas de exploração, como expressão testemunhal que pode ajudar a definir um perfil biográfico do autor; como forma de esclarecer os movimentos dos bastidores da vida literária; e como laboratório de criação, ao permitir que se adentre por um projeto literário, conhecendo-o desde a sua concepção primeira e acompanhando-o ao longo de sua trajetória editorial. Angela de Castro Gomes no prólogo de Escrita de si, escrita da História trata sobre uma nova forma de pensar a correspondência e da relevância que lhe passou a ser dada. Para Gomes, a escrita autorreferencial ou escrita de si integra um conjunto de modalidades do que se convencionou chamar produção de si no mundo moderno ocidental. Essa denominação pode ser mais bem entendida a partir da ideia de uma relação que se estabeleceu entre o indivíduo moderno e seus documentos. Segundo Gomes, a escrita de si teria iniciado a divulgação de sua prática, grosso modo, no século XVIII devido a uma série de circunstâncias anteriores, como a produção por indivíduos comuns de uma memória de si, o surgimento dos termos biografia e autobiografia, o aparecimento do romance moderno, além da emergência do cidadão moderno, dotado de direitos civis e políticos. Essa prática, afirma ainda a autora, é um fenômeno que vem sendo estudado por várias ciências que já consolidaram algumas ideias, sendo que uma delas é a de que a vida individual é matéria digna de ser narrada. Dessa forma, os tempos modernos consagrariam o lugar do indivíduo na sociedade, quer como uma unidade coerente quer como uma multiplicidade que se fragmenta socialmente, exprimindo identidades parciais e nem sempre harmônicas. A escrita de si de Caio Fernando Abreu não se circunscreve a sua correspondência, ela está também em seus diários, entrevistas e em toda a sua literatura. A leitura de suas cartas só corrobora o que já se pode intuir pela de sua obra, que essa traduz o que lhe vai na alma. E assim sendo, a memória de Caio F. não é apenas pessoal e intransferível, mas é tão somente pessoal e intransferível. Na correspondência ativa publicada de Caio F. percebe-se a já citada tripartição proposta por Marcos Moraes. Nosso propósito é analisar como o espaço social apresenta-se nessa correspondência sem deixar de lado as referências ao ato criativo.

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