Governantes e governados, autoritarismo e democracia no Ensaio sobre a lucidez: uma construção dialética

Deivis Jhones Garlet

Resumo


RESUMO: Este artigo apresenta uma possibilidade de leitura acerca da crítica social presente na obra Ensaio sobre a lucidez, de José Saramago, sobremaneira a partir das premissas teóricas da crítica sociológica inerentes a Antonio Candido e autores do Círculo de Bakhtin. De acordo com essa base teórica podemos perceber a obra artística como um reflexo e uma refração do contexto material de produção, especialmente o meio ideológico que circunda o escritor e com o qual ele labora em sua construção estética. Assim, elementos extraestéticos, produtos ideológicos superestruturais são incorporados de maneira transformada na estrutura interna da obra, assumindo funções específicas no contexto narrativo e também um posicionamento axiológico, na obra e em retorno ao contexto material. De um modo geral, objetivamos elucidar a construção dialética da narrativa que alterna o foco dos governantes para os governados em um devir constante e essencialmente dialógico. Buscamos a especificidade do literário no plano narrativo e também na análise dos diálogos e ações das personagens, pois o pensamento político se revela justamente na relação governantes e governados, na qual a democracia constitui temática central. Desse modo, a articulação entre análise literária e crítica sociológica nos permite afirmar que há um posicionamento axiológico de crítica ao autoritarismo dos governantes, à ineficácia da representação política do homem desprovido de consciência ética e, em contrapartida, de valorização da democracia e de sentimentos e atitudes pautadas pela consciência cidadã. Por outro lado, temos consciência dos diversos trabalhos de pesquisa sobre a obra saramaguiana, entre dissertações, teses, trabalhos independentes e artigos científicos que abordam diversos aspectos, como a metalinguagem, a ironia, a alegoria e também a crítica social nas narrativas, a exemplo da constatação da crítica aos excessos do poder, à hipocrisia social, a perda dos valores humanitários entre outros. Porém, em nosso entendimento, a questão da democracia parece-nos tangenciada, de modo que propomos a seguinte indagação: Qual o lugar da democracia no contexto narrativo e de que forma ela é expressa? Para um apurado êxito de nosso objetivo, necessitamos recorrer a outros campos do saber, como a história e a ciência política, configurando um estudo interdisciplinar e no âmbito da literatura comparada.

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